segunda-feira, 5 de abril de 2010

SIMPLES COMO AMOR

Quinto romance escrito por Diedra Roiz. Postado pela primeira vez de Junho a Dezembro de 2008.
Publicado em Junho de 2017 pela Editora Vira Letra.




SIMPLES COMO AMOR
Em versão impressa (livro) e digital (ebook)!
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Lembrando que... Copiar o texto e apenas trocar o nome das personagens e/ou detalhes da história não é fanfiction, muito menos adaptação, é plágio. E plágio é crime! Por favor, não façam isso, ok?


SINOPSE:
As diferenças causam impacto e chocam. Que forças podem quebrar essas barreiras? Isto é o que Malu vai tentar descobrir depois de uma noite incrível ao aroma de charutos cubanos... Com o tipo de mulher para o qual sóbria ela jamais olharia: uma que o senso comum definiria como masculina.




MÚSICAS QUE INSPIRARAM A HISTÓRIA:














Capítulo 1

SIMPLES COMO AMOR

Em versão impressa (livro) e digital (ebook)!
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Um Surpreendente Amanhecer

Através de um pequeno, quase ínfimo vão das cortinas mal cerradas, um raio de sol se esgueirou e foi bater justamente no rosto de Malu. Aos poucos, com muita dificuldade, ela foi abrindo os olhos.

Espelhos da alma... Que doíam e rodavam, profetizando a ressaca física e moral que teria que enfrentar.

Não fazia a menor idéia de onde estava. Só sabia que... Tinha um braço desconhecido em volta da cintura.

Olhou ao redor, ou melhor, diretamente para o espelho no teto. E teve de uma só vez a resposta para todas as perguntas.

Cautelosamente, para não acordar a mulher de cabelos curtinhos que dormia abraçada a ela, foi se desvencilhando aos poucos. A outra se virou, resmungando. Malu sentou na cama e pressionou a mente. Precisava se lembrar.

Os flashes — incrível como depois de toda amnésia alcoólica as lembranças sempre vêm aos poucos, cortadas, como cenas mal editadas de um filme... — pipocaram.

Noite anterior. Mesa da boate. A tal mulher, extremamente masculina, exatamente o tipo que Malu detestava, fumando um... Charuto? Uma atração repulsiva tomando conta de Malu, enquanto beijava ardentemente a mulher do charuto na boate. Na verdade, um sentimento de prazer e desejo — como nunca havia sentido antes — a dominara. E por fim, no quarto do motel, a mulher empurrando Malu para a cama.

Malu caindo de costas, deitada, e a outra se atirando em cima dela com uma expressão absolutamente voraz.

A simples lembrança fez Malu se arrepiar inteira. Porque em toda a experiência que tinha com mulheres — que realmente não era muita, mas... — nunca, jamais, havia cogitado agir daquele jeito.

Em primeiro lugar, se lançar assim, do nada, nos braços de uma desconhecida completa. Em segundo, permitir — quase morrendo de tanto prazer — que a dominassem, a sujeitassem de uma forma tão...

Suspirou, exasperada, afastando o pensamento. Não adiantava culpar a bebedeira. Tinha adorado o jeito da outra, que não deixava margem para pudores nem resistências. Tinha se rendido, mergulhado numa entrega total e derradeira.

Passou a mão nos cabelos, tentando não se desesperar por completo. Olhou em volta novamente. As roupas das duas espalhadas, misturadas pelo chão. Irônico reflexo do que havia acontecido.

Em cima da mesinha de cabeceira um cinzeiro, com vários charutos apagados. A noite havia sido longa. E incrível. Não podia negar. Pelo pouco que conseguia se lembrar, e... Pelo corpo totalmente dolorido...

Saiu sem deixar rastros. Pegando as roupas espalhadas e se vestindo o mais rápido possível.

* * * *

A corrida de táxi pareceu interminável. Abriu a porta do apartamento e deu de cara com Kiko sentado, ainda de pijaminha, tomando café tranquilamente. Sem deixar de dar um risinho muito debochado, o amigo perguntou:

— E aí? Como foi com a charutão?

— Grande amigo você, hein?

Entre uma mordida no pão e um gole na xícara de café, veio a resposta displicente:

— Ué, a culpa é minha?

Malu passou a mão nos cabelos uma, duas, três vezes. Bufou, respirou fundo, o que só fez Kiko dar mais um risinho. Malu não aguentou:

— Caramba, bicha! Como você me deixou sair da boate com aquela mulher? Não acredito!

— Ah, minha filha... O que você queria que eu fizesse?

— Me impedir, me arrastar de lá... Sei lá! Se a Laura ficar sabendo... Merda!

Não conseguia nem imaginar qual seria a reação da ex-mulher. Malu havia passado os últimos meses tentando reconquistar Laura. Não se conformava com a separação. Não aceitava jogar fora os cinco anos em que haviam estado juntas assim, sem mais nem menos.

Sim, porque na verdade, não existiam motivos. Aparentemente, tudo estava muito bem, até o fatídico dia, que Malu jamais esqueceria. 


Três meses atrás...

Era uma sexta-feira. Estavam em casa, Laura cozinhando, enquanto Malu auxiliava — era péssima na cozinha — em coisas simples como cortar cebolas, pegar uma colher ou panela, etc... Como sempre faziam. Conversando sobre assuntos absolutamente banais e irrelevantes, quando de repente — num tempo que para Malu pareceu surreal, surpreendente — Laura simplesmente disse:

— Quero me separar de você.

Sem nem levantar os olhos do que estava fazendo.

Malu recuou inconscientemente. Só percebendo quando as costas bateram na geladeira. E gaguejou:

— Quê? Eu... acho que não entendi direito...

Ainda sem olhar para Malu, Laura respondeu:

— Nós duas... Não tá mais dando certo.

Malu passou da catatonia para o desespero:

— Como assim? Você me diz isso assim, do nada, desse jeito? Que tá acontecendo, Laura? Você tá me traindo? Você tem alguém?

Finalmente, Laura se virou. Ficaram frente a frente. Olhou para Malu profundamente. Os olhos muito tristes e sinceros:

— Não tenho ninguém. Só acho que viramos colegas de quarto. Não somos mais amantes, somos amigas. E um casamento não é isso.

Malu balançou a cabeça negativamente, numa rejeição muda do que a outra estava dizendo:

— Depois de cinco anos de casamento, você queria o quê? Que fosse como no começo? É claro que as coisas esfriam um pouco...

Incrivelmente, Laura riu. Antes de dizer calmamente:

— Esfriar é uma coisa. Não existir, é outra.

Aí Malu não agüentou. Aproximou-se de Laura, mas não a tocou:

— Como não existe? Vai dizer que não sentimos nada uma pela outra?

Laura apenas respondeu, com um sorriso irônico e triste:

— Nós somos e sempre vamos ser muito amigas.

— Amigas? Amigas? Você é minha mulher, Laura!

A distância física entre elas, que permanecia mesmo num momento crucial daqueles, fez Laura explodir:

— Sou? Mesmo? Você ainda sente algum tesão por mim? Seja sincera... Faz meses que não fazemos sexo.

— Tenho trabalhado muito, ando cansada...
Laura voltou a rir. Sacudiu a cabeça, em total discordância às desculpas da companheira:

— Malu, chega... Acabou... Nós duas sabemos... Impossível a gente continuar se enganando, fingindo que tá tudo bem.

Finalmente, de um jeito calmo, suave e meigo, Malu a abraçou. E sussurrou no ouvido dela:

— Não é verdade... Nossa relação anda um pouco desgastada, é só isso... É sei lá, a rotina, mas... Nada que não se resolva...

Os olhos de Laura faiscaram. Com uma raiva intensa, desafiou:

— Ah, é? Então me beija! Me joga naquela cama, agora! Me prova que eu tô errada, e você certa... Me mostra, Maria Luiza!

Malu colou a boca na de Laura quase com fúria. Fechou os olhos, e tentou... Mas infelizmente, naquele momento — não sabia por que — não conseguiu sentir nada por Laura. Desejo nenhum.

Entreabriu os lábios, a língua de Laura entrou voraz, tentando despertar aquilo que, quando tinham se conhecido, era imediato, mas que naquele momento parecia impossível.

Malu percorreu a pele de Laura por baixo da blusa, as mãos encontrando os seios, sem empolgação nenhuma.

Laura interrompeu o beijo, e se afastou.

Malu ainda insistiu:

— Por favor, Laura... Você sabe que...

Mas era evidente demais, inegável demais a total falta de química. Como se as peles não se dissessem mais nada. 


Laura apenas disse:

— O que eu sei é que nós duas merecemos um casamento de verdade. Não adianta, falar não vai mudar nada.

Simples assim. Direto e rápido encerramento de todos os planos e certezas de Malu. Há três meses. E início de um assustador e doloroso recomeço. Sob os olhares reprovadores e penalizados da família. Teve que ouvir a mãe dizendo, com os olhos cheios de lágrimas:

— Minha filha... Eu te avisei... Eu te disse que essa vida que você escolheu é muito solitária... Muito triste... Você nunca vai ter uma família de verdade...

Em compensação, Kiko a tinha recebido de braços abertos para dividirem o apartamento de dois quartos:

— Vamos nos divertir muito, amiga! Vou te colocar pra cima! Tem um mundo de mulheres lindas te esperando, você vai ver! Vai esquecer a Laura rapidinho!

Mas Malu não havia esquecido. Nem desistido. Telefonava para Laura quase todos os dias. Sentia muita falta dela. Das conversas, da companhia, dos filmes que assistiam abraçadinhas e das noites em que dormiam de conchinha, embaladas, aquecidas uma no calor da outra. Os dias pareciam tão gelados e vazios quanto a cama onde rolava até altas horas da madrugada, sem conseguir pegar no sono.

E assim, os três primeiros meses se passaram, num sofrimento passivo, deprimido, que não a deixava.

Kiko insistia em convidar Malu para sair. Todos os finais de semana. De quinta a domingo. Mas Malu nunca ia. Preferia ficar sentada no sofá da sala, o controle da TV zapeando incessantemente os canais.

Até a véspera, quando... Tinha telefonado para Laura e a ex não tinha atendido... Na mesma hora, a cabeça de Malu começou a criar milhares de historinhas. Nenhuma boa. Todas terminavam com Laura e outra... Então, entrou no Orkut de Laura e teve a confirmação de seus piores pesadelos: vários comentários, íntimos demais, calorosos demais, de uma tal de Bia... Uma mulher que Malu simplesmente desconhecia...

Resolveu sair com Kiko. De pura raiva. Enquanto se arrumava, começou a beber com o amigo. Quando chegou à boate, a cabeça rodava. Um carrossel de pensamentos, lembranças e mágoas...

Tonta de bebida, de empolgação e de uma vontade inconfessável de libertação que há muito não sentia, nem pensou em resistir. Rendeu-se à inevitabilidade instintiva dos sentidos.

Será que por isso havia beijado com uma voracidade perturbadora uma desconhecida no meio da boate? Ou por se sentir rejeitada, espezinhada, largada por Laura, querendo que ela soubesse e sofresse? Infantil desejo de vingança, ou última cartada, baseada na crença de que as pessoas só dão valor ao que perdem?

Fosse o que fosse, era totalmente incoerente. Sem sentido, razão, nem explicação. Além do tesão insano, desmedido, incompreensível, que a outra — a mulher dos repulsivamente sedutores charutos cubanos — a tinha feito sentir.

— E então? - um Kiko muito curioso, com um sorriso malicioso no rosto, perguntou.

— Então o quê?

— Ué, como foi?

Malu lançou um olhar que seria fulminante para qualquer pessoa. Em se tratando de Kiko — que era talvez uma das pessoas mais sem semancol do mundo — não funcionou:

— Vai, amiga, conta...

Já sabendo que ele iria insistir até conseguir o que queria, Malu acabou dizendo:

— Contar o quê? Nós fomos pro motel, fizemos sexo, e só.

Kiko abriu um sorriso debochado, com uma das sobrancelhas levantadas:

— Você ficou com ela a noite toda... Não pode ter sido tão ruim...

Sem resposta... Foi assim que Malu ficou. Até porque ruim era exatamente o contrário do que havia sido. Mas não estava disposta a confessar isso para ninguém ainda. Nem para si mesma.

Kiko continuou olhando para a amiga como se pudesse ler dentro dela:

— Eu nunca te vi fazer uma coisa dessas, e nos conhecemos há o quê? Uns dez anos, pelo menos... Então, quer dizer que de algum jeito, a coisa bateu... Senão, você não teria ido com a charutão assim tão fácil, né?

Sim, tinha "batido" muito mais do que Malu gostaria. Atirou-se no sofá, passou a mão no rosto, deu um suspiro... A única resposta que teve, foi:

— Meu querido, se você estivesse há mais de nove meses sem sexo como eu, também não ia achar difícil...

Kiko sorriu mais ainda. Aproximou-se de Malu, com as mãos na cintura, olhando-a de cima a baixo, antes de dizer:

— Sei... Até parece... Isso nunca foi problema pra você antes... Malu, você foi virgem até os vinte um anos! E com tantas mulheres dando mole pra você, por que escolheu logo a charutão? Sim, porque foi você quem deu em cima dela.

Malu olhou interrogativamente para ele. Tentou se lembrar, mas só conseguiu uma careta de dor. A cabeça latejava impiedosamente. Apertou as têmporas, sem saber se o que o amigo dizia era verdade ou não...

Kiko sentou ao lado dela:

— Você não lembra?

Com um aceno envergonhado de cabeça, Malu respondeu que não. Kiko então informou:

— Não lembra de ter olhado acintosamente pra charutão, sorrindo, dando tanto mole que ela veio sentar na nossa mesa?

Malu apenas respondeu absolutamente surpresa:

— Não.

Kiko tapou a boca com uma das mãos. Depois a colocou na base do pescoço, segurando o colar que usava, sem conseguir disfarçar o quanto estava perplexo:

— Amiga, tô passado...

Depois de menos de um segundo de silêncio, ele soltou:

— Eu nunca te vi tão segura do que tava fazendo... Não me diga que era a bebida falando por você...

Malu abaixou a cabeça e tapou os olhos com as mãos. Não era nem um pouco como ele estava dizendo. Estava bêbada, não lembrava direito, mas... No fundo sabia que tinha seguido o mais profundo e inconfessável desejo. A bebida não tinha culpa. Apenas tinha ajudado a fluir.

Kiko interrompeu os pensamentos dela, com uma ansiedade evidente:

— Quer saber o resto? Ou prefere que eu pare por aqui?

Por um momento, Malu tentou evitar a curiosidade latente, insistente... Sem conseguir. Precisava saber o que tinha acontecido. Para ver se conseguia compreender o porquê...

— Conta. Eu quero saber.

Depois de um pigarro seco, limpando a garganta como se fosse cantar uma ópera, o amigo começou, com um prazer quase sádico:

— Bom, assim que a charutão chegou na nossa mesa, você a agarrou... Nem deixou a mulher dizer o nome, antes disso, já estava com a boca colada na dela, beijando loucamente.

Kiko parou, olhando fixamente para a amiga, como quem pede autorização para continuar. Malu entendeu, e pediu:

— Continua.

Com um suspiro, dramático como sempre, Kiko completou:

— Bom... Pra encurtar a história... Você agarrou a charutão, sentou no colo dela, e quase trepou com ela ali mesmo. Pensei até que vocês fossem ser expulsas... E iam ser... Se a charutão não tivesse te levado embora.

— Bicha, não acredito que você me deixou dar um show desses...

— Eu tentei te impedir... Juro... Mas você parecia uma gata no cio, Malu...

Malu voltou a abaixar a cabeça, e a esconder o rosto entre as mãos:

— Que vergonha...

Kiko riu, achando a reação dela engraçadíssima. Tirou delicadamente as mãos da amiga do rosto, a fez levantar a cabeça, e a olhou bem nos olhos, incentivando, ao dizer:

— Vergonha por quê? Que bobagem... Você é uma mulher livre e desimpedida, amiga... Tem mais é que aproveitar mesmo. E pelo pouco que eu vi ontem, com certeza o negócio foi bom...

E riu novamente.

Malu suspirou profundamente, exasperada ao extremo, antes de dizer:

— Sinceramente? Não quero mais falar sobre isso... Nem pensar nisso...

Com um olhar irônico, malicioso mesmo, Kiko respondeu:

— Acho que você não vai ter escolha...

Malu arregalou os olhos:

— Como assim?

O risinho de Kiko só aumentou:

— Já se olhou no espelho?

Para dizer a verdade, Malu até tinha olhado no espelho... No teto do motel. Onde tinha olhado para tudo, menos para si mesma...

Caminhou até o banheiro lentamente. Com medo do que já sabia. Parou em frente ao espelho, e viu... Dos dois lados do pescoço, as indisfarçáveis e inconfundíveis marcas roxas.

As lembranças vieram novamente, imagens muito pouco nítidas, em contraste com as sensações incrivelmente vívidas que a atingiam. De um jeito excitante, incontrolável, irresistível — que a fez sentir a pele inteira arder novamente, num delicioso arrepio que começava no ventre e se espalhava úmido entre as pernas...

Com uma expressão profundamente perdida, sem entender nem conseguir explicar o que sentia, Malu voltou a esconder o rosto entre as mãos, com um gemido de puro desespero.


SIMPLES COMO AMOR
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Capítulo 2

SIMPLES COMO AMOR

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Lances Nada Inocentes

Depois de passar o final de semana se recuperando da bebedeira de sexta, Malu se sentiu aliviada quando acordou na segunda-feira pela manhã e retomou a rotina.

Rotina, diga-se de passagem, era uma coisa que Malu adorava. Gostava de se sentir segura. De ter tudo absolutamente planejado e estruturado. Detestava surpresas e imprevistos. Isso era fato.
Chegou à Escola Nacional de Circo, na Praça da Bandeira, onde dava aulas de trapézio fixo e acrobacia de solo, e foi direto para o picadeiro. Alguns alunos já esperavam, conversando e se aquecendo preguiçosamente sentados em cima dos tatames, porque afinal de contas, ainda era cedo, e alguns vinham de muito, mas muito longe, mesmo.

As aulas correram sem maiores atropelos. As turmas já estavam bastante avançadas nas acrobacias de solo, a maioria dos alunos até já fazia flip-flap (salto em que o acrobata pula para trás e passa pelo apoio das mãos caindo em pé, muito parecido com o “macaco” da capoeira) sem lonja (corda que serve como proteção) na cintura.

Depois houve duas turmas de trapézio fixo. Quase todos os alunos também já eram capazes de realizar figuras, truques e quedas individuais sem esforço.

Malu almoçou, e de tarde, tudo de novo. Quando saiu, às dezesseis horas, foi direto para a Hebraica, em Laranjeiras, onde estava dando aula de acrobacia aérea — mais especificamente tecido — para alguns alunos, na maioria atores performáticos, entre eles Kiko.

Fizeram um aquecimento caprichado, porque era muito fácil conseguir uma distensão sem isso, o esforço muscular necessário era realmente pesado. Malu subiu no tecido, e mostrou a sequência de movimentos, para que os alunos repetissem. Assim que desceu, Kiko falou baixinho:

— Se a charutão te visse fazendo isso... Com certeza ela teria um troço...

— Cala a boca, Kiko.

Foi a merecida resposta. Seguida de um arrepio que ela disfarçou do amigo. Causado pela simples menção e lembrança da mulher que não conseguia tirar do pensamento. Por mais que isso parecesse absurdo e esquisito.

A semana inteira passou naquele ritmo. E terminou na sexta à noite, com Malu mergulhada até o pescoço, relaxando na banheira.
Kiko entrou no banheiro, sem bater na porta. Como fazia sempre. Malu não ligava, eram amigos há séculos e tinham total intimidade.

Um perfume fortíssimo exalava dele. Malu não teve como deixar de implicar:

— Bicha, uma pessoa alérgica não pode nem chegar perto de você assim...

— Queridinha, perfume bom não dá alergia... Só essas porcarias que você usa...

Malu espirrou água em Kiko, que se esquivou habilmente. E disse:

— Tá dizendo que meus perfumes são ruins, é?

Na mesma hora, Kiko respondeu, batendo as mãos e depois com o dedo em riste, de um jeito muito afetado, mesmo:

— Mona, presta atenção no que eu vou te dizer: você tá solteira! Ficar usando Calvin Klein “Be” e “One” não vai te ajudar, não...

Malu soltou uma gargalhada antes de sair da banheira, se enrolar na toalha e ir para o quarto, seguida por Kiko, que continuou, dizendo:

— Você precisa é de um Victoria Secret... Ou então um Versace: Red Jeans for Women... Algo bem doce, bem feminino... Já sei: Loulou! Esse é in-fa-lí-vel!

Foi quando ele arregalou os olhos, ao ver Malu abrir o armário e pegar uma camisola:

— Mas o que significa isso? Sexta à noite e a senhorita pretende ficar em casa dormindo?

Antes que Malu pudesse dizer qualquer coisa, Kiko jogou a camisola dela de volta no armário, gritando:

— Nada disso! Meu bem, você vai sair comigo.

Vasculhou as roupas dela à procura de algo que servisse. Malu tentou protestar, recusar, mas não foi ouvida.

Kiko já estava estendendo um dos poucos vestidos de noite que Malu tinha — a maioria das roupas dela era de malha, mais esportivas — dizendo:

— Vai se vestir sozinha ou prefere que eu te vista à força, hein?

Enquanto Malu obedecia, ele revirava a gaveta de calcinhas:

— Minha Nossa Senhora do corta tesão! Pudera que você e a Laura nada... Qualquer um brocharia ao dar de cara com uma coisa dessas...

Disse, estendendo uma calcinha de algodão grande e velha — estilo Bridget Jones — mas muito confortável. Que Malu tentou pegar, dizendo:

— Pára, viado! Me devolve!

— Nada disso! Diga adeus a essas aberrações!

Com um saco plástico na mão, ele ia pegando e se livrando das calcinhas que Malu mais gostava, dizendo:

— Fora!... Fora!... E... Fora!

Deixando a gaveta praticamente vazia. Deu um nó no saco, completando:

— Queridinha, primeira lição: mulheres solteiras como nós não podem se arriscar usando coisas horrorosas como essas. Temos que estar preparadas sempre!

Malu ainda tentou argumentar, dizendo que para o dia a dia era melhor usar calcinhas de algodão. Chegou a apelar dizendo que era a própria ginecologista afirmava isso...

Kiko então parou, e falou — com um tom de voz absolutamente fatigado, como se estivesse fazendo uma enorme concessão:

— Tudo bem. Quer usar calcinha de algodão? Que pelo menos seja preta, então!

E saiu do quarto de Malu em direção à lixeira do prédio, onde impiedosamente despachou o saco de calcinhas velhas para sempre.

Depois voltou, e andou ao redor de Malu, suspirando e dizendo:

— Ai, eu não entendo... Se eu tivesse nascido mulher, meu amor, ia andar maquiada o dia inteiro! Ah, e ia ter unhas cumpridas, sempre pintadas de vermelho...

Malu olhou para as próprias unhas. Cortadas curtinhas, sem esmalte, nenhuma frescura do gênero. Antes de dizer:

— Ah, bicha, não enche!

Kiko a ignorou completamente. Puxou-a para o quarto dele:

— Vem! Vou te maquiar e tentar dar um jeito nisso que você chama de cabelo.

Sabendo que nem adiantava tentar resistir, porque quando o amigo botava uma coisa na cabeça era melhor obedecer, Malu se deixou maquiar por ele.

Sacudindo o pincel do blush como um pintor diante do quadro, Kiko falou:

— Minha irmã tinha uma Barbie Face. Quando ninguém estava vendo, eu ia lá escondido e... Tá, eu sei o que você deve estar pensando. Mas a gente se maquiar não é igual... Maquiar os outros é muito mais divertido, meu bem. Ai, pra que Barbie Face, não é? Agora eu tenho você...

Malu riu, e imediatamente, levou uma bronca:

— Não se mexe, racha! Ai, meu Deus!

Quando terminou o “make up”, Kiko soltou o eterno rabo-de-cavalo de Malu, encheu a mão de mousse, e bom cabeleireiro que era, pegou um pente e de uma forma surpreendente, ajeitou os cabelos castanhos. Olhou-a, dando uns retoques aqui e ali, borrifou o tal perfume “Loulou” nela, e fechou com um:

— Voilá! Parfait!

* * * *

Malu estava ansiosa quando entraram na boate. A mesma em que tinham ido na última sexta. Por uma insistência velada, mas perceptível dela.

Alimentando uma vontade de reencontrar a mulher dos charutos, que apesar de inconfessável, era... Absolutamente incontrolável.
Estranhamente, Kiko concordou sem uma piada sequer. Não percebendo ou fingindo — quem sabe? — não perceber.

Sentaram no balcão, o mesmo, onde da outra vez, a charutão estava. Pediram duas Smirnoff Ice e ficaram ali, bebendo e observando o movimento. Para variar, nada interessante.

Kiko riu, percebendo a falta de paciência de Malu. Explicou como se estivesse dando aula a uma criança:

— Cinco anos e você desaprendeu tudo? Tá achando que Angelina Jolie vai aparecer aqui na sua frente, queridinha? Liga seu periscópio! Esqueceu? Tem que peneirar, amiga...

Periscópio... Peneirar... De repente, Malu se via de volta a uma vida que ela considerava ultrapassada. Uma vida antes de ser casada, antes de Laura, quando tinha 27 anos e tudo ainda parecia tremendamente engraçado e divertido. Mas que naquele momento, causava uma melancolia insuportável. O suspiro que soltou foi tão alto, que Kiko a olhou. Como se não acreditasse, repreendeu-a:

— Minha Nossa Senhora da depressão! Desmancha essa cara de funeral, meu bem!

Nesse momento, a expressão de Malu mudou tão completamente, que Kiko até se espantou. Os olhos dela acompanharam em silêncio alguém que entrava na boate.

Imediatamente, Kiko quis ver quem. Voltando a olhar chocado para Malu ao ver que não era ninguém mais ninguém menos que... A charutão.

— Fecha a boca, Malu. Menos...

Foi a primeira coisa que ele falou. Malu obedeceu rapidamente. Bem a tempo da mulher dos charutos se aproximar, encostar ao lado dela no balcão e pedir uma cerveja. Sem olhar para Malu, como se nunca a tivesse visto.

A mulher pegou a long neck, o braço encostando-se ao de Malu sem querer. E Malu, involuntariamente, estremeceu.

Quando a outra se afastou, Kiko não teve como deixar de dizer:

— A charutão mexe mesmo com você, hein?!

Mas Malu nem respondeu. Apenas bebeu o resto da Smirnoff Ice de uma só vez.

Três garrafinhas iguais depois... Kiko estava ao lado dela em altos beijos com um careca fortíssimo, que era, sem dúvida, a bicha com mais cara de Pit Boy que Malu já tinha visto.

— Vou dar uma volta.

Disse, sem ter certeza se o amigo tinha escutado ou não. Andou pela boate, os olhos procurando, e indo parar, certeiros, numa das mesas. A mulher estava sentada, de charuto na mão, conversando com um rapaz elegante, muito bonito.

Malu se assustou quando uma loira parou na frente dela, toda sorrisos:

— Oi!

— Oi... — respondeu, sem desgrudar os olhos da mesa da charutão.

— Você é linda, sabia?

— Ãh?

Foi a resposta de Malu, absolutamente sem prestar atenção. A loira a segurou pelo braço, e esperou Malu olhar para ela antes de repetir:

— Eu disse que você é linda.

Malu nem agradeceu. Só percebeu que a loira tinha um cigarro na mão. Pediu:

— Me dá um cigarro?

— Claro.

A loira entregou o cigarro sedutoramente. Depois aproximou o isqueiro, mas Malu a impediu de acender:

— Obrigada... Fico te devendo.

E se afastou, deixando a loira sem entender. Movida pelo álcool, curiosidade, desejo ou as três coisas, Malu se aproximou da mulher dos charutos. Parou na frente dela, que levantou os olhos, percorrendo-a inteira, antes de olhá-la nos olhos profundamente. A voz de Malu saiu um pouco trêmula ao dizer:

— Tem fogo?

A mulher olhou para o cigarro que os dedos trêmulos de Malu estendiam, e respondeu com um sorriso malicioso, de pura libido:

— Sempre.

O rapaz na mesa riu. A mulher abriu um zippo, acendeu e esperou. Malu se inclinou, encostou o cigarro na chama, sentindo os olhos da outra queimando ao entrarem profundamente no decote do vestido preto que estava usando.

Por um breve instante, os olhos se encontraram novamente. Antes de perceberem que o cigarro que Malu segurava estava pegando fogo, porque... Malu tinha acendido do lado errado.

Com uma rapidez incrível, a mulher arrancou o cigarro da mão de Malu, o jogou no chão e pisoteou com a boot preta. Apagando aquele incêndio, mas não o outro. O que queimava Malu por dentro, e que a cada movimento da outra se tornava ainda mais intenso.

— Não quer sentar?

A voz do rapaz tirou Malu da quase hipnose em que se encontrava. Sentou na cadeira que o rapaz puxou apesar da mulher olhar para o amigo sem esconder o desagrado.

Ignorando a outra completamente, o rapaz estendeu a mão para Malu, dizendo:

— Prazer. Eu sou o Pedro. E você é?...

— Maria Luiza. Mas pode me chamar de Malu — respondeu, apertando a mão dele, que ao contrário da amiga, a olhava com simpatia.

Pedro olhou significativamente para a mulher na frente dele, que continuou calada. Antes de dizer:

— Desculpe a falta de educação da minha amiga. O nome dela é Angela.

Um sorriso surgiu sem querer nos lábios de Malu, porque... Aquele nome não tinha nada a ver com a mulher de gel no cabelo, camisa da “Cavalera”, calça jeans e botas do exército com um charuto na boca.

Angela pareceu ler os pensamentos dela, porque falou:

— Meus pais não podiam adivinhar, não é mesmo?

E riu gostosamente. Foi nesse momento que Kiko apareceu. Ficou parado, estático, do lado de Malu, olhando fixamente para Pedro. Tentou disfarçar inutilmente:

— Amiga, te procurei por toda parte, e...

Malu se levantou e disse para Angela e Pedro:

— Com licença...

E puxou Kiko para um canto. Exagerado como sempre, ele disse:

— Menina, quem é esse deus grego? Me apresenta!

Pedro seguiu Malu com o olhar antes de perguntar para Angela:

— Que foi? Tá doente? Esnobando uma gata dessas que, diga-se de passagem, tá se atirando em cima de você?

Com um sorriso cínico, Angela respondeu:

— Já peguei, meu querido... E como você sabe, não gosto de repetir.

A reação de Pedro foi rir. Sem muita surpresa. Afinal, nos últimos dois anos, a amiga estava assim mesmo. Absurdamente sarcástica, fria ao extremo. De um jeito que não tinha sido sempre. A causa do ceticismo dela se resumia a um nome: Taís. Mas isso era uma coisa que só os dois sabiam.

Pedro não perdoou. Disse:

— Ah, o amor! E o medo dele...

Sem conseguir o efeito desejado, porque Angela não se abalou. Pelo contrário, saiu-se com uma resposta à altura:

— Por que é que bicha adora essas coisas melosas? Quer saber? O amor que se foda! Quero aproveitar a maravilhosa era das pessoas descartáveis!

Os olhos dela já tinham um alvo. Iam e voltavam de um ponto fixo, que Pedro seguiu. Uma morena que estava parada atrás dele, numa roda de amigos, correspondendo totalmente aos olhares de Angela. Pedro riu como quem diz: “você não tem jeito”, antes de implicar:

— E nada de reciclagem...

Angela riu sem tirar os olhos da garota, de um jeito absolutamente predador. Bateu no ombro do amigo, levantou-se e se despediu, dizendo:

— Com licença, eu vou à luta...

Antes de se aproximar da morena como um felino se aproxima da presa.

Assim que Angela se levantou, Malu parou de prestar atenção em Kiko, que continuava elogiando Pedro, implorando para ser apresentado a ele.

Viu quando a outra se aproximou e começou a flertar com uma morena inacreditavelmente bonita.

A morena pegou Angela pela mão e a puxou para a pista, onde começaram a dançar ao som de “Lady Marmalade” (Moulin Rouge Soundtrack). Do nada, outra menina se aproximou, insinuando-se também. Angela a recebeu com aquele olhar safado que fazia Malu sentir arrepios.

Malu ficou parada, observando Angela dançando com as duas mulheres, beijando-as na boca alternadamente.

Então, num impulso absolutamente instintivo, que deixou Kiko perplexo — como ele confessou depois — Malu caminhou até Angela, e começou a dançar com o corpo colado no dela, sorrindo maliciosamente e umedecendo os lábios, provocando.

A resposta de Angela foi aproximar os lábios dos de Malu... Apenas para desviar a boca, rindo, e se afastar logo depois.

Aquilo fez com que Malu sentisse uma raiva tão grande que a cegou. Começou a dançar no meio da pista, se insinuando para as garotas que estavam com Angela de um jeito irresistível, fazendo com que as duas a deixassem para dançar com Malu.

Angela observou os movimentos da outra com os olhos brilhando e um sorriso de prazer profundo. Entendendo e adorando o jogo que Malu estava propondo.

Com uma intimidade que deixou Malu sem forças, puxou-a suavemente pela cintura e começou a dançar com ela, descartando as outras duas. De um jeito completamente excitante, seguro, enfeitiçante. Colando o corpo no dela, deslizando uma das mãos sensualmente pelas costas de Malu...

Malu estremeceu sem deixar de mover o corpo contra o de Angela. Se insinuando também, abraçando-a e puxando para que as bocas se encontrassem finalmente. Fechou os olhos antecipando o beijo, mas Angela apenas roçou os lábios nos dela.

As peles se arrepiaram, dominadas por um calor pulsante. Malu deixou escapar um suspiro, antes de voltar a abrir os olhos. Angela a olhava como se fosse devorá-la. Os olhos queimando.

Malu correspondeu passando os braços languidamente ao redor do pescoço dela, a respiração suplicante, o olhar prometendo uma entrega sem reservas nem cobranças.

Angela não aguentou. Mergulhou a boca na de Malu com uma súbita urgência, num beijo tão intenso que até respirar se tornou absolutamente irrelevante.


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Capítulo 3


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À Flor da Pele

Se antes do beijo Malu estava agindo de maneira puramente instintiva, depois dele qualquer forma de racionalidade se tornou impossível.

Não estava tão bêbada quanto da outra vez, e pôde sentir perfeitamente o gosto do charuto na boca da outra. Estranho e contrário a tudo o que pensava, a sensação apenas aumentou o prazer inebriante que o contato com a boca de Angela proporcionava.

Entreabriu os lábios sem perceber, respondendo a um desejo quase primitivo. Deixando escapar um gemido quando a língua da outra invadiu, buscou e se misturou à dela, possessiva.

Angela também optou por não pensar. Se o fizesse, provavelmente sairia correndo, com medo do turbilhão que um simples beijo era capaz de causar. Deixou-se levar, saboreando a forma ardente com que Malu se esfregou nela inteira, puxando Angela pela nuca, enfiando os dedos nos cabelos dela...

Bastante surpresa, porque na outra sexta-feira, havia achado que aquilo era apenas resultado da bebedeira; mas pelo visto não. Malu estava agindo exatamente do mesmo jeito. E causando o mesmo efeito. Sussurrou, impaciente:

— Vamos sair daqui. Vem.

Sem esperar resposta, foi puxando Malu pela mão. Ela não ofereceu resistência. Deixou-se levar, como da primeira vez. A única diferença, era estar plenamente consciente do que estava fazendo.
Quando chegaram ao carro, um Fusca vinho totalmente reformado e incrementado, Angela abriu a porta para ela. Fechou quando Malu entrou e sentou. Deu a volta, e se acomodou no banco do motorista.
Ficaram se olhando durante alguns momentos. A tensão entre elas evidente.

Malu estava um pouco impressionada. Há muito que não sentia o coração bater daquele jeito. E com certeza, nunca por uma mulher como aquela.

Angela estava assustada, talvez até um pouco apavorada, por não ter conseguido extirpar o desejo que sentia por Malu de primeira, como acontecia todas as vezes.

Pousou a mão na perna dela, perto do joelho. Sentiu Malu se arrepiar inteira. Sorriu, satisfeita, acariciando a coxa quente, subindo a mão por baixo da saia enquanto colava os lábios nos dela.

Ardente, exigente, envolvente. Foi o sabor daquele beijo. Que Malu correspondeu completamente.

A mão de Angela continuou subindo, acariciando o interior das coxas, encostando de leve na calcinha de Malu, fazendo com que ela deixasse escapar um gemido contra a boca que, tantalicamente, a desvendava toda.

Angela também gemeu, quando Malu a apertou com força, as mãos escorregando por debaixo da camisa dela, as pernas se abrindo para ela.

Desceu os lábios pelo pescoço que se oferecia, fazendo Malu gemer. Mais ainda, quando os dedos de Angela escorregaram por dentro da calcinha e a tocaram intimamente, se deliciando com a umidade inegável, muito mais do que evidente.

Poderia resolver aquilo ali mesmo, rápida e facilmente. Malu estava toda entregue, suspirando, suplicando, querendo... Mas Angela sabia perfeitamente que aquele desejo irresistível que Malu exalava era como um vinho envenenado. Precisava de tempo para o antídoto ser ministrado. Para o feitiço ser quebrado. Mais uma noite bastava. Isso era o que esperava. O que dizia para si mesma.

Malu protestou quando Angela parou o que estava fazendo. Depois levou a mão de Angela à boca e chupou despudoradamente cada dedo. Só não levando Angela à loucura, porque isso não acontecia facilmente.

Colando a boca no ouvido de Malu, Angela sussurrou:

— O que vai ser?

Malu prontamente respondeu:

— O mesmo motel, o mesmo quarto, tudo exatamente igual à última vez...

E esfregou o rosto no dela, a boca descendo, percorrendo os pontos sensíveis do pescoço de Angela, fazendo-a gemer.

— Isso é um fetiche, ou o quê? — Angela perguntou.

Sem parar o que estava fazendo, mordiscando a nuca de Angela entre uma palavra e outra, Malu respondeu. A voz doce, derretida, arquejante:

— É que... Eu tava... Muito bêbada... E não... Não me lembro... Direito...

O que a arrepiou mais, se as palavras de Malu, ou o jeito que ela falou, Angela não soube dizer. Segurou-a pela nuca, e a beijou novamente. As línguas se reencontraram num duelo de desejos. A outra mão de Angela desceu inconscientemente pelo corpo de Malu, parando nos seios. As bocas se separaram, apenas para que Angela dissesse:

— Quer lembrar como foi? Foi por isso que ficou atrás de mim a noite inteira?

Sem desgrudar os lábios dos dela, Malu respondeu, um sussurro apenas:

— Não...

A boca de Angela desceu, explorando o queixo de Malu, até chegar na orelha, e sussurrou, antes de voltar a beijar o pescoço dela de forma intensa:

— Então, por quê?

Quando Malu respondeu, foi gemendo, de forma absolutamente verdadeira:

— Porque... Tem alguma coisa na sua pele... No seu toque... No seu cheiro... Que me faz querer você...

O percurso no carro foi em silêncio. Com uma pressa gritante. Angela sendo obrigada a pedir que Malu a soltasse, tirasse as mãos do corpo dela, antes que causasse um acidente...

Entraram no quarto de motel com as bocas e corpos colados, se devorando. Malu se lembrando que da outra vez tinha sido a mesma coisa. Esse pulsar incessante e sem tréguas onde cada instante continha um prazer de séculos.

Angela a empurrou para a cama, e se deitou em cima de Malu. As mãos percorrendo o corpo dela incansavelmente ainda por cima das roupas. Uma excitação delirante tomando conta dela à medida que os suspiros, gemidos e movimentos de Malu iam aumentando e se descontrolando debaixo dela...

A reação de ambas as surpreendendo, porque... Era como...  Sexo adolescente. Um desespero alvoroçado, desconcertante, sufocante, ardente... Tão completamente intenso que com o simples roçar dos corpos ainda totalmente vestidos, as duas já estavam quase...

Malu a puxou, com um desejo insano. Cobiçando, querendo, precisando... A língua não tendo como se fundir mais profundamente à dela. Apertou Angela com força, o roçar do jeans nas coxas nuas a enlouquecendo. Esforçando-se para não gozar rápido, naquele momento.

Foi quando Angela subiu o vestido dela, beijando cada milímetro de pele que descobria. Tirou a calcinha de Malu, deixando-a completamente nua. Ficou ali de quatro em cima dela, admirando o corpo queimado de sol, curvilíneo, visivelmente trabalhado, de músculos bem definidos. Umedecendo inconscientemente os lábios ao fitar os seios bem feitos, lindos, antes de mergulhar a boca neles.

A forma como Angela gemeu ao lamber, sugar e chupar os seios dela — demoradamente, com um prazer enorme, evidente — fez Malu ser tomada por uma súbita e inadiável impaciência. Arrancou a camisa, abriu e abaixou o jeans e a calcinha da outra até abaixo dos joelhos rapidamente.

Angela ajudou, se apoiando nas mãos, e depois fazendo o resto. Livrando-se das calças com as pernas e depois as chutando para o chão. E finalmente, se deitando sobre Malu, os corpos inteiramente nus parecendo entrar em combustão.

As bocas voltaram a se encontrar. Malu acariciou as costas de Angela, os dedos se enfiando na pele, puxando-a com força, como se quisesse se fundir com ela. Angela gemeu alto, e desceu a mão de uma forma absolutamente urgente até encontrar o ponto que procurava.

Malu gemeu, se contorceu e se rendeu aos dedos que a acariciavam, não podendo nem querendo adiar mais a satisfação.

Angela sussurrava com uma voz abusivamente rouca no ouvido dela, aumentando a excitação do momento. Palavras que faziam Malu se arrepiar inteira e ordens que ela prontamente obedeceu.

Ergueu um pouco a perna, para facilitar o contato com o sexo que se esfregava nela. Mexeu os quadris, tornando os movimentos e a voz de Angela ainda mais ardentes. E explodiu num gozo longo e intenso, sentindo Angela  acompanhando-a, estremecendo e gemendo junto com ela.

Ficaram se recuperando, o rosto de Angela nos cabelos de Malu, os dedos de Malu enfiados na nuca de Angela, descendo pela coluna dela, causando arrepios na pele ainda quente.

Então, a boca de Angela já estava no pescoço de Malu, fazendo que nas veias das duas voltasse a correr fogo líquido.

Percorrendo o colo, parando nos seios, despertando um desejo tão grande que não parecia que haviam acabado de gozar a instantes apenas, a boca de Angela continuou descendo. Passando rapidamente pela barriga e ventre, abrindo e percorrendo as pernas de Malu, e se deliciando com a forma como as coxas se ofereceram absolutamente suplicantes e ardentes.

Malu enfiou os dedos nos cabelos curtinhos, puxando, direcionando Angela para o meio das pernas dela.

Angela não ofereceu resistência. Passou a língua devagar, querendo aproveitar, saborear mesmo. Fazendo Malu gemer, e sussurrar, pedindo:

— Assim... Não pára... Desse jeito...

De uma forma tão intensa, que Angela sorriu, satisfeita. Intensificou os movimentos da língua. Aprofundou, percorreu, explorou o sexo de Malu inteiro.

Os dedos de Malu se afrouxaram por um breve momento, para acariciarem os cabelos de Angela no mesmo ritmo da boca que a devorava vorazmente. Para logo depois, voltarem a puxar os cabelos curtinhos com força, dizendo:

— Vou gozar pra você...

Angela estremeceu... E intensificou o toque, se deleitando com os gemidos cada vez mais desesperados que Malu deixava escapar.

Aumentou o ritmo, provocando tremores incontroláveis, fazendo Malu gritar alto, várias vezes, dando vazão à total satisfação do desejo...

Não aguentou, o corpo involuntariamente roçando no colchão, explodindo em total sintonia com o delicioso orgasmo de Malu. Os próprios gemidos abafados no sexo dela, a boca e a língua continuando a se movimentar contra ele sem pena. Continuou lambendo, chupando, sugando até Malu a empurrar, se contorcendo e fechando as pernas.

Não a deixou tomar fôlego. Abraçou e beijou Malu, deixando claro que queria mais. Fazendo com que ela se lembrasse o porquê do corpo todo dolorido da outra vez. Angela parecia nunca ficar satisfeita...

Correspondeu com o mesmo ardor, o mesmo desejo, deixando Angela ainda mais empolgada. Fazendo-a sussurrar no ouvido de Malu o que queria de uma forma deliciosamente irrecusável.

De um jeito que Malu desconhecia, totalmente diferente de tudo o que normalmente fazia, nem discutiu. Ajoelhou na cama, e ficou de costas para ela.

Angela a abraçou por trás, colando o corpo no dela, a mão esquerda acariciando os seios de Malu, enquanto a outra se enfiava entre as pernas.

Um gemido involuntário escapou dos lábios dela quando sentiu que os dedos de Angela a penetravam. Primeiro um, depois o outro. Peritos, suaves, com total habilidade. Aos poucos aumentando os movimentos, enquanto chupava e mordiscava a nuca de Malu por trás.

Esfregando, comprimindo o corpo contra o dela, voltando a falar no ouvido de Malu, e levando-a a píncaros insuportáveis e desconhecidos de prazer. Fazendo com que Malu gozasse novamente com uma facilidade vergonhosa e surpreendente.

E depois, sem tirar os dedos, fazendo Malu ficar de quatro, e recomeçando tudo outra vez.

Sentir Angela se esfregando contra as nádegas dela, gemendo, estimulando-a com palavras e com os dedos, fez com que, mais uma vez, Malu não pudesse nem quisesse se conter. Quase sem respirar, só o que pôde fazer foi acompanhar, gemer baixinho, e se entregar incondicionalmente. Até voltarem a gozar juntas. Gemendo alto, tremulando e murmurando palavras e frases que seriam.... Absolutamente censuráveis fora do quarto.

Malu se jogou na cama de bruços, exausta, mas absolutamente feliz e saciada. Demorou um tempo para recuperar as forças e abrir os olhos.

Quando o fez, Angela estava sentada do lado dela, fumando um charuto, usando uma calcinha que — só então Malu pôde reparar — era mais uma cueca, e olhando displicentemente para o nada.
Ficou sem saber o que dizer. Muito menos o que fazer. Continuou deitada, quieta, e aproveitou para observar melhor a mulher que tinha tanto poder sobre o corpo dela.

Os cabelos castanhos escuros curtinhos, cortados de uma forma totalmente irregular, assimétrica, e arrepiados com gel. O corpo magro, de seios pequenos, quase andrógino. Uma munhequeira de couro preta no pulso esquerdo. Tatuada na parte exterior do braço esquerdo, perto do ombro, uma cruz Ansata preta, com contorno branco e uma linha preta fina de acabamento, de meio palmo mais ou menos. E na parte interna do braço direito, um escaravelho, também preto.

Angela se virou, para bater a cinza do charuto no cinzeiro na mesinha de cabeceira, e então Malu pode ter uma total visão da terceira tatoo dela: um olho de Horus do tamanho de um punho entre as omoplatas. Ou seja: ela gostava de símbolos, principalmente egípcios, pelo jeito...

Depois de demorar um tempo excessivamente grande virada de costas para Malu — tempo que precisou para pensar em como acabar com o silêncio desconfortável que se estabeleceu — Angela acabou apagando o charuto antes de voltar a olhar para ela, tentando quebrar o gelo:

— E então? Refresquei sua memória?

E como Malu a olhasse parecendo não estar entendendo direito:

— Lembrou do que aconteceu na sexta passada?

Malu esperava por tudo, menos que ela falasse aquilo. Não teve como deixar de rir. E abaixar a cabeça, um pouco envergonhada.

Com um sorriso satisfeito, Angela se levantou, foi até o frigobar, pegou uma cerveja e uma Smirnoff Ice, e voltou para a cama.

O sorriso que Malu deu quando agradeceu não foi só pela gentileza, mas também, porque... Se Angela sabia o que ela estava bebendo no balcão, de uma forma ou de outra, tinha prestado atenção. Não teve como não perguntar:

— Por que você fingiu que não me conhecia?

Angela a olhou, muito surpresa. Não esperava aquele tipo de questionamento. Muito menos a reação que teve. Não se irritou, pelo contrário, sentiu uma inexplicável vontade de esclarecer.

Deu um gole na cerveja, tomando coragem, e respondeu com sinceridade:

— Pensei que você não quisesse falar comigo. Afinal de contas, naquele dia você saiu... Como eu posso dizer... Fugida?

Malu a olhou, bastante sem graça:

— Desculpe, eu... Bom, eu acordei sem me lembrar de nada, sem saber onde estava, e... Achei melhor... Você ficou chateada?

A primeira resposta de Angela foi uma risada. A segunda saiu sem querer, como se falasse alto:

— Chateada, eu? Fiquei até aliviada.

Ao ver a reação de Malu, ficou um pouco sem jeito:

— Desculpe, eu... Não é que não tenha sido bom. Mas é que... Você tava trêbada, né? A manhã seguinte ia ser no mínimo desconfortável...

Mas não teve coragem de dizer que na verdade, Malu tinha feito o que ela sempre fazia com todas com quem transava. Que teria sido ela a ir embora, se Malu não tivesse acordado primeiro.

Beberam e conversaram. Coisas superficiais. Nada sobre elas. Parando para rir de vez em quando. A atração que existia inquestionável, indisfarçável, vibrando.

Até que Angela se levantou, e foi para o banheiro, dizendo que ia tomar um banho. Malu continuou deitada, tentando entender o que estava sentindo, sem resultado.

Ouviu o barulho da água, imaginou Angela nua, os cabelos e a pele molhados debaixo do chuveiro... Foi o que bastou para o corpo inteiro se arrepiar com uma nova pontada de desejo.

Num impulso irreprimível, pouco ligando como, porque e qual seria o resultado, deixou que o instinto mais uma vez a guiasse. Foi até o banheiro, abriu o box, e entrou no chuveiro, deixando Angela absolutamente surpresa, rendida e deliciada, quando depois de um beijo possessivo, intenso, derradeiro, se ajoelhou e mergulhou a boca entre as pernas dela com a mais sincera voracidade.



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